Rede Histórica

Um novo conceito para a Historiografia - entrevista com o historiador José D'Assunção Barros

José D'Assunção Barros é o primeiro historiador a ser entrevistado pela Rede Histórica. Autor que transita em diversos campos de estudo, destaca-se nas áreas de Teoria e Metodologia da História. Professor da UFRRJ, lançou recentemente pela Editora Vozes quatro volumes de Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais (volume I), os primeiros paradigmas: historicismo e positivismo (volume II), os paradigmas revolucionários (volume III) e acordes historiográficos: uma nova proposta para a teoria da história (volume IV). Confira a entrevista concedida via e-mail (ao final da leitura é possível fazer o download em PDF):

Rede Histórica: O primeiro volume procura apresentar os conceitos fundamentais da Teoria da História. Quais são esses conceitos? Que papel desempenham na formação de um historiador (a)?


José D’Assunção Barros: Para trazer mais consistência à resposta que darei a esta pergunta, gostaria de lembrar, antes de mais nada, que a Teoria da História não é apenas uma mera instância para ser instrumentalizada pelos historiadores nas suas diversas áreas de estudo e nas suas pesquisas. A Teoria da História, além de ser isto em um dos seus sentidos, é também uma área específica de pesquisa e reflexão dentro da História: uma área que estuda, analisa e problematiza o trabalho dos historiadores, suas maneiras de ver e fazer a história, os modos como eles escrevem as suas narrativas e desenvolvem as suas análises, os tipos de associações que os historiadores estabelecem entre si.

Compreendido este sentido mais amplo para a expressão "Teoria da História" (e esta expressão já é ela mesma um dos conceitos fundamentais para este campo), é preciso também ressaltar que a expressão "teoria da história" também pode ser utilizada para designar cada um dos diversos modos de conceber a história como modalidade específica de conhecimento, de maneira que se pode dizer que existem diversas "teorias da história" ou "paradigmas historiográficos".

As "teorias da história" neste sentido mais específico (de paradigmas) devem ser bem distinguidas das "filosofias da história", uma questão à qual me dedico em um dos capítulos deste primeiro volume. Também considerei muito importante esclarecer as implicações de a História ser concebida como uma disciplina científica, isto é, como um "campo disciplinar" (este é, aliás, um conceito importante com cuja discussão eu praticamente abro o livro). Além disto, o esclarecimento sobre a distinção entre “Teoria” e “Método” foi outro ponto fundamental desta primeira parte da obra.

Sobretudo, para fixar alguns conceitos operacionais com vistas à tarefa de analisar o trabalho dos historiadores da nossa época e das anteriores, concluí que era muito importante discorrer sobre os conceitos de "paradigma", "matriz disciplinar", "escola histórica", "campo histórico". A cada um destes conceitos eu dedico uma discussão importante no primeiro volume da minha coleção Teoria da História, uma vez que eles são necessários para a tarefa à qual me dedico nos demais volumes, a saber: a de abordar o desenvolvimento da historiografia e o trabalho dos inúmeros historiadores, com suas formas específicas de conceber e fazer a história.

 

 

Rede Histórica: Quais são as diferenças e semelhanças entre Teoria da História e Filosofia da História? Como distinguir Teoria de Método?

José D'Assunção Barros: Estas delimitações são ambas muito importantes para a compreensão desta área de estudos que é a Teoria da História. Começarei a falar da segunda, pois ela é de caráter mais geral.

No primeiro volume da minha coleção Teoria da História, eu procuro mostrar que uma Teoria – inclusive em vista da própria etimologia da palavra – relaciona-se a um certo modo de “ver” as coisas. “Ver”, aqui, deve ser entendido não apenas no sentido de olhar ou contemplar, mas sobretudo no sentido de “conceber” algo, de entender de determinado modo algum aspecto da natureza, da realidade ou relacionado aos diversos campos de saber. Por exemplo, quando me refiro a esta ou àquela teoria sobre o processo histórico de “descolonização” que ocorreu no século XX, ou quando enumero as diversas teorias que existem acerca do “Nazismo” ou sobre a eclosão de revoluções no período moderno, estou me referindo aos diferentes modos como estes fenômenos têm sido vistos pelos historiadores e cientistas políticos. Os físicos também têm inúmeras teorias sobre os diversos fenômenos pertinentes aos seus campos de estudos, assim como os químicos, os biólogos, os antropólogos e tantos outros praticantes de campos específicos do conhecimento. É importante também ressaltar que não existe apenas uma teoria para cada fenômeno ou assunto, mas inúmeras teorias sobre cada elemento a ser estudado em cada qual dos vários campos de conhecimento. Vale dizer, para cada aspecto da realidade, fenômeno ou processo histórico, existem diversas maneiras de concebê-los.

Agora vamos entender o que é a “Metodologia”. Se a “Teoria” relaciona-se ao verbo “ver”, a Metodologia relaciona-se ao verbo “fazer”. A Metodologia surge quando você tem uma tarefa específica a ser realizada. Particularmente, a metodologia surge quando entram em cena os procedimentos de pesquisa, a necessidade de lidar com informações de forma mais sistemática, e inúmeras outras operações. Para os historiadores, metodologia está muito ligada a fontes históricas, em vários níveis de ação. Para constituir minhas fontes de estudo – a partir das quais conseguirei enxergar uma sociedade ou processo histórico – preciso de metodologia. Para analisar este ou aquele tipo de fontes, preciso novamente de metodologia. Para comparar resultados possibilitados por diversos níveis de análise, preciso de mais metodologia. Há mesmo metodologias para expor resultados de uma pesquisa (por exemplo, gráficos que sintetizam informações e tendências). A Metodologia, enfim, liga-se ao “fazer”. Ver e fazer – ou “Teoria” e “Metodologia” – são dois gestos fundamentais para os praticantes de qualquer tipo de conhecimento: dois gestos que na verdade se interligam, que interagem um com o outro, mas que correspondem cada qual a um domínio específico, por assim dizer. Juntos, teoria e metodologia constituem os alicerces principais da constituição do conhecimento científico.

A distinção entre “filosofia da história” e “teoria da história” é mais sutil. Quando contraponho estas duas expressões – o que fiz no segundo capítulo do primeiro volume da coleção Teoria da História – estou entendendo “teoria da história” no sentido mais específico: ‘teoria da história’ como qualquer uma das diversas maneiras de conceber o conhecimento histórico, sua natureza, as funções do historiador. Soa grandes “teorias da história”, neste sentido, o Positivismo, o Historicismo, o Materialismo Histórico. A expressão, neste nível de sentido, também pode ser substituída por uma outra: o conceito de “paradigma”.

O que ocorre com as diversas “teorias da história” – ou com os diversos modos de conceber a História como um campo específico de conhecimento – é que elas são grandes espaços coletivos de pensamento construídos pelos historiadores e filósofos que pensam de uma mesma maneira em relação à história. Por exemplo, os historicistas concebem a História, como campo de conhecimento, de um determinado jeito, a partir de determinados princípios e pressupostos, assim como os materialistas históricos. As teorias da história começam a surgir no século XIX, precisamente quando a História começa a ser postulada como um saber cientificamente conduzido.

Já as “filosofias da história” eram realizações específicas de certos filósofos. Por exemplo, temos a filosofia da história de Kant, a filosofia da história de Hegel, e assim por diante. É interessante notar que as filosofias da história acabam sendo construções pessoais deste ou daquele filósofo, e não um universo comum a inúmeros pensadores que enxergam a História de maneira análoga, tal como ocorre com as teorias da história.

Um outro ponto de contraste entre ‘filosofias da história’ e ‘teorias da história’ é o fato de que as primeiras são essencialmente especulativas: tentam imaginar ou propõem a ideia de que o desenvolvimento da história vai conduzir a determinado ponto. Em uma palavra, são “teleológicas”. O sentido da história é o principal interesse de uma “filosofia da história”. Já uma “teoria da história” não está interessada, rigorosamente falando, em especular sobre o fim da história ou sobre os desígnios secretos que a movem. Uma “teoria da história” concentra-se na tarefa de fornecer aos historiadores instrumentos conceituais e teóricos para compreender as coisas que aconteceram ou que estão acontecendo. Por exemplo, o Materialismo Histórico, se o compreendermos como uma das muitas “teorias da história” disponíveis aos historiadores, disponibiliza aos que querem pesquisar e refletir sobre a história um certo conjunto de conceitos fundamentais, como o de “classe social”, “luta de classes”, “modo de produção”, e também determinados modos de ver a história, como por exemplo a ideia de que a história é principalmente feita não por indivíduos, mas por grandes grupos humanos que são as classes sociais. Também é importante ter em vista que uma “teoria da história”, depois que é fundada por um ou mais autores, passam a ser espaços coletivos de reflexão, para os quais todos podem colaborar com desenvolvimentos posteriores. Por exemplo, não posso alterar a “filosofia da história” de Kant, mas posso contribuir com aportes teóricos para o Historicismo ou para o Materialismo Histórico.

 

 

Rede Histórica: Que lugar Positivismo e Historicismo ocupam hoje na formação de um historiador (a)?

José D'Assunção Barros: Positivismo e Historicismo são os primeiros paradigmas clássicos, por assim dizer, da historiografia. Eles surgem precisamente como as duas alternativas que se colocam para os historiadores naquele momento, que se dá no trânsito do século XVIII para o XIX, no qual a História passa a postular um estatuto de cientificidade, um lugar nas cadeiras universitárias, e uma identidade profissional para este estudioso especializado que será o historiador. Algumas décadas depois, surgiria o terceiro paradigma clássico: o Materialismo Histórico.

Com relação ao Positivismo e Historicismo, e a quaisquer outros paradigmas, eles seguem adiante no tempo como possibilidades para os historiadores, inclusive de hoje, oferecendo-lhes possibilidades específicas de conceber a História como campo de conhecimento. É verdade que o Historicismo encontrou mais eco na historiografia contemporânea do que o Positivismo, que em contrapartida ainda sobrevive bem em algumas das demais ciências sociais. Isso se dá, em meu entender – tal como esclareço nos capítulos dois e três do Volume II da coleção Teoria da História – em vista dos modos divergentes como um e outro destes paradigmas encaram o problema da ‘Objetividade e Subjetividade’ na produção do conhecimento histórico.

O Historicismo foi tendendo a consolidar cada vez mais a noção de que o trabalho dos historiadores é interpenetrado em diversas instâncias pela subjetividade humana. As sociedades que o historiador analisa seriam, para o Historicismo, singulares, e as fontes históricas produzidas pelos homens do passado são atravessadas seja por subjetividades pertinentes a estas sociedades singulares, seja por subjetividades concernentes aos autores ou produtores destas fontes (por exemplo, um texto escrito em uma época remota foi escrito por alguém, atravessado por subjetividades várias, portador de interesses diversos, pertencente a determinada classe social ou instituição, envolto por certas circunstâncias). Ora, com o tempo, os historicistas passaram a dirigir este modo de enxergar o mundo humano – circunstanciado, relativizado, problematizado – para si mesmos, isto é, para entender que os historiadores também eles são atravessados por intersubjetividades. Enfim, um historiador é tão histórico quanto as suas fontes.

Essa é a pedra de toque que faz do Historicismo um paradigma mais atualizado para a historiografia atual do que o Positivismo. A consciência crescente sobre a historicidade de qualquer coisa, e sobre a relatividade de qualquer ponto de vista, permitiu que o Historicismo encontrasse seus próprios espaços de renovação no seio das sociedades contemporâneas, um pouco mais que o Positivismo – que, em contrapartida, ainda é um paradigma bem presente nas ciências sociais que lidam prioritariamente com métodos quantitativos e com a crença em leis gerais e universais que regeriam os desenvolvimentos humanos.

Posto isto, conhecer muito bem as proposições destes dois paradigmas antagônicos – o Historicismo e o Positivismo – é sempre muito importante para os historiadores em formação, sobretudo porque o confronto entre estes dois paradigmas permite enxergar com especial luminosidade o problema da ‘Objetividade e Subjetividade’ na produção do conhecimento histórico. Foi por isso que escolhi para tema transversal do ‘volume 2’ da coleção Teoria da História – que trata do Positivismo e do Historicismo – a reflexão sobre esta questão de fundo: o jogo entre objetividade e subjetividade no trabalho do historiador. No limite o reconhecimento do peso das intersubjetividades nas elaborações historiográfica pode levar ao relativismo extremado, que é discutido no terceiro capítulo deste mesmo volume.

 

 

Rede Histórica: No terceiro volume nos encontramos com Marx e Nietzsche. De que forma eles revolucionaram os estudos históricos? Ainda são vozes que ecoam na historiografia brasileira?

José D'Assunção Barros: Uma escolha de algum modo audaciosa, na organização da coleção Teoria da História, foi a de partilhar o mesmo ‘volume 3’ entre as reflexões sobre Marx e Nietzsche – ou, mais especificamente, sobre o Materialismo Histórico e sobre este outro paradigma que chamei de “Paradigma da Descontinuidade” – e de qualificar a ambos, por fim, como “paradigmas revolucionários” (este terminou, aliás, por se tornar o subtítulo do volume).

Disse que há certa audácia nesse gesto de aproximar os dois autores a partir do subtítulo de “paradigmas revolucionários” porque, frequentemente, os cultuadores de um e de outro destes grandes filósofos se estranham mutuamente. No entanto, tanto Marx como Nietzsche são revolucionários para a história por terem instituído dois paradigmas que questionam certos valores estabelecidos que não eram nem de longe colocados em cheque pelos historiadores e pensadores de sua época. Além disto, e é este ponto que considero revolucionário nos dois autores, eles começam a fazer uma nova pergunta, embora cada um a responda de uma maneira diferente. “Qual a utilidade da História para a vida?”. Esta é a pergunta que ressoa tanto em Marx como em Nietzsche, e que fundam de certo modo duas novas perspectivas.

A pergunta, em Marx, encontra como resposta a ideia de que o historiador deve contribuir para a transformação da sua realidade – e, no caso, de sua realidade social. Deste modo, a História encontraria uma utilidade muito específica para a Vida, contribuindo para redirecionar o destino da humanidade ao propor um novo modelo de sociedade que só poderia ser alcançado através do desenvolvimento da própria história. A contribuição de Marx, todavia, vai muito além desta proposta política que mais tarde ficaria conhecida como “marxismo”. Aliás, uma das primeiras preocupações do capítulo sobre o “Materialismo Histórico” é a de distinguir este do “marxismo”, e também do pensamento “marxiano” (o pensamento específico de Karl Marx). O Materialismo Histórico é um paradigma historiográfico, uma certa maneira de ver e de conceber a história. O marxismo é um programa de ação política. E, quando digo que há ainda uma terceira coisa que é o pensamento “marxiano”, refiro-me ao fato, ao qual retorno no último capítulo do ‘volume 4’, de que há elementos da identidade teórica de Marx que não podem ser confundidos como traços inerentes ao Materialismo Histórico (por exemplo, o ateísmo, que era importante para Marx, não é um traço obrigatório do paradigma do Materialismo Histórico, tal como discuto no ‘volume 4’, e nem mesmo do programa marxista de ação política, tal como o demonstra a Teologia da Libertação e outros movimentos que são ao mesmo tempo religiosos e de inspiração marxista).

De todo modo, Marx (e Engels) – ou, mais especificamente, o Materialismo Histórico – foram revolucionários porque trouxeram à História um novo olhar teórico-metodológico: o de que os verdadeiros agentes da história não são os indivíduos, mas sim as classes sociais. Além disto, Marx desloca o olhar dos meros acontecimentos políticos para as realidades econômico-sociais, revolucionando também as possibilidades de escolhas dos objetos historiográficos. Até hoje repercute nos historiadores esta lucidez que rompeu com o padrão historiográfico tradicional e permitiu perceber que a história não corresponde apenas aos acontecimentos políticos, mas também às instâncias sociais, econômicas, culturais, e todas as outras.

Neste ponto, acho importante lembrar que Nietzsche foi igualmente revolucionário para a historiografia. Ele chamou atenção para questões muito importantes, das quais os historiadores não costumavam se aperceber em sua época. Uma delas era a “ilusão do Progresso” – essa ideia de que a humanidade caminha necessariamente, de maneira linear e contínua, em direção ao melhor, e de que, no fim de tudo, um paraíso nos espera. A essa ilusão iluminista, nem mesmo Marx pôde resistir – já que também ele esperava encontrar, depois de muita luta, o seu paraíso no fim da história: no caso, um mundo socialista. Esta leitura iluminista da história, linear e progressiva, foi questionada severamente por Nietzsche, que chamou atenção para o fato de que a história é construída a cada segundo, implicando tomadas de decisão e escolhas que não levam a lugares pré-determinados, e que, portanto, trazem uma incontornável responsabilidade a todos os homens que estão inarredavelmente mergulhados na história.

Nietzsche percebeu que os historiadores de sua época, e de outros tempos, reforçavam esta ilusão e costumavam falsificar a história (por vezes de modo não-consciente) construindo uma narrativa que simulava linearidade e progresso, além de enfatizar a ideia de que “o que aconteceu, aconteceu assim porque não podia ser de outro jeito”. Ao construírem as suas narrativas fechadas e únicas, os historiadores selecionavam para a posteridade certos aspectos da história e deixavam que muitos outros se perdessem no vasto oceano histórico, além de embarcarem ingenuamente no cotejo triunfal dos vencedores. Walter Benjamin, um materialista histórico que também deixa ressoar em si o “Paradigma da Descontinuidade”, irá chamar a estes materiais e processos esquecidos de “centelhas perdidas” – as quais os historiadores despertos deveriam se dedicar a recuperar para pô-las a brilhar à luz de um novo presente, capaz de contribuir para lhes trazer uma nova luminosidade. Isto seria pôr a História ao serviço a Vida, uma vez que as centelhas recuperadas também poderiam, em contrapartida, contribuir para transformar o próprio Presente e mesmo mudar o Futuro.

Até hoje algumas das contribuições de Nietzsche estão em pauta na historiografia. A História precisa ser crítica (questionar os poderes estabelecidos e os automatismos vigentes). Deve ser pensada polifonicamente (não deve ser exibida como um canto gregoriano linear e monódico, mas sim como uma sinfonia extremamente complexa e exuberante, para cuja orquestração se conclama o papel de um “historiador-artista”, muito mais do que um “historiador-cientista”). Por fim, Nietzsche viu com especial clareza que tudo é histórico, e que não existem valores eternos, transcendentes, imutáveis. E, claro, Nietzsche chamou atenção para o fato de que a História precisava, acima de tudo, servir à Vida.

Marx e Nietzsche, de alguma maneira, são ‘filósofos do despertar’, que procuraram sacudir os homens de sua época do sono que os envolvia. Suas contribuições repercutem até hoje, também entre os historiadores brasileiros. Mas gostaria de lembrar que, embora eu tenha discorrido nesta resposta a respeito de Marx e Nietzsche, já que a pergunta os mencionou diretamente, o terceiro volume de Teoria da História não trata apenas destes dois autores, mas sim dos paradigmas historiográficos que eles fundaram ou ajudaram a fundar. Abordo mais o paradigma do Materialismo Histórico do que a contribuição específica de Marx (que, por seu turno, terá um lugar especial em um dos capítulos do ‘volume 4’). Conforme disse antes, os paradigmas, ou as “teorias da história”, são construções coletivas. Uma vez fundado ou sugerido um novo modo de ver as coisas, este passa a constituir um paradigma que, a partir daí, passa a ser elaborado e reelaborado a muitas mãos. O Materialismo Histórico foi beneficiado por inúmeras contribuições – como as de Gramsci, Thompson, Lukács, Walter Benjamin, e tantos outros – e o paradigma da ‘Descontinuidade’ foi se consolidando a partir de contribuições importantíssimas como a de Foucault e outros mais. Eu discorro sobre todos estes autores, e, sobretudo, acerca da contribuição de cada um deles para os paradigmas em questão.

Na historiografia brasileira, respondendo à segunda parte da pergunta, as vozes de todos estes autores são muito ressonantes. O historiador brasileiro é essencialmente acórdico – para já mencionar um conceito que será importante no ‘volume 4’ da coleção – e muito habitualmente agrega de forma criativa as mais diversas contribuições e influências. Considero a historiografia brasileira uma das mais ricas do planeta, apesar de não receber o mesmo apoio que os historiadores recebem em alguns países como os da Europa e como os Estados Unidos da América. Percebo um diálogo muito intenso, na historiografia brasileira, com autores como os da escola inglesa do materialismo histórico (Edward Thompson, Hobsbawm e outros), com a Escola de Frankfurt (Adorno, Marcuse e os demais), com a vasta contribuição de Foucault, e com os micro-historiadores italianos – isto sem falar, é claro, na ressonante influência de diversos historiadores ligados à Escola dos Annales e à Nova História. Mas percebo que estas influências são retomadas de formas muito criativas pelos nossos historiadores. Pretendo falar destas ressonâncias no ‘volume 5’ da coleção Teoria da História, ainda por escrever.



Rede Histórica: O que significa ser um “historiador acórdico”? Esse conceito sugere um relacionamento com a música aos moldes daqueles que os historiadores possuem, por exemplo, com a filosofia e a literatura?

José D'Assunção Barros: Utilizei esta expressão na resposta anterior apenas para expressar a minha opinião de que os historiadores brasileiros são muito ricos na assimilação de influências e contribuições diversificadas nos seus trabalhos, pondo-as a dialogar de maneira criativa e coerente, mas sem produzir gratuidades e inadequações. Trabalham com a mesma habilidade e desenvoltura que precisa ter um músico ao compor suas composições musicais.

Na verdade, eu sustento no ‘volume 4’ que a maioria dos pensadores – historiadores, filósofos, antropólogos, sociólogos, e tantos outros – constrói a sua identidade teórica de maneira acórdica. Isto é, cada pensamento autoral é complexo, tem a sua singularidade, beleza e eficiência próprias, como acontece com um belo acorde musical. É uma metáfora de trabalho que serviu de guia para todo o quarto volume da coleção Teoria da História. Criei com isso um novo conceito para análise da historiografia (isto é, do trabalho dos historiadores de nossa época e de todas as épocas). Esse conceito é o de “acorde teórico”: um recurso teórico-metodológico que esclareço logo na abertura do quarto volume da coleção.

O recurso do “acorde teórico”, conforme postulo, também poderia ser utilizado para analisar o pensamento autoral de filósofos, antropólogos, psicólogos ou outros pensadores. Mas eu os utilizo especificamente, neste livro, para analisar o pensamento autoral e a produção bibliográfica de historiadores e filósofos da história (filósofos ou outros pensadores que pensaram sobre a história em alguns momentos de sua trajetória intelectual). Examino autores como Walter Benjamin, Ranke, Droysen, Max Weber, Paul Ricoeur, Koselleck, e Marx, além de pequenos comentários com análises mais rápidas sobre inúmeros outros historiadores e filósofos. Este é o objeto do quarto volume da coleção Teoria da História.

 


Rede Histórica: Para finalizar, poderia nos dar mais detalhes sobre esse novo conceito?

José D'Assunção Barros: A ideia do “acorde teórico” – um recurso para apreender metaforicamente uma complexidade autoral – ocorreu-me em vista da necessidade de resolver um problema que surgiu com o paciente estudo e esforço de síntese aos quais me entreguei nos volumes anteriores.

Disse, em outro momento, que um dos principais conceitos utilizados para delinear a identidade teórica de um historiador é o conceito de “paradigma”. De fato, este é um conceito útil e interessante para a Teoria da História. Um “paradigma” é um certo modo de ver (conceber) e fazer a História. Apenas para mencionar três paradigmas bem conhecidos (mas que não são os únicos), posso citar o Positivismo, o Historicismo e o Materialismo Histórico. Examinei os dois primeiros no ‘volume 2’ da coleção Teoria da História, e o terceiro no ‘volume 2’.

Quando organizamos a vasta produção historiográfica em paradigmas e correntes teóricas, conseguimos aproximar os historiadores uns dos outros, verificar quais tem afinidades entre si, quais trabalham com conceitos análogos e sustentam concepções parecidas sobre a História. Os historiadores têm se reconhecido nos paradigmas, e outras vezes os classificamos no interior de um determinado paradigma, mesmo sem que este ou aquele autor tenha se autoidentificado com o paradigma em questão durante a sua vida. De todo modo, o conceito de paradigma é bastante útil. Por exemplo, inúmeros historiadores se apresentam como ligados ao paradigma do Materialismo Histórico, a outros podemos qualificar como historicistas, e assim por diante. Procurei nos volumes iniciais da coleção esclarecer os fundamentos de cada paradigma, ou repensar como cada um destes paradigmas responde a determinadas questões.

No quarto volume, eu pretendi realizar um exercício de historiografia – um mergulho em maior profundidade na obra de alguns autores específicos, de modo a apreender a singularidade de cada um. Foi aí que surgiu o problema.

Quando examinamos um autor específico, podemos tentar situá-lo no interior de um certo paradigma. Frequentemente isso dá certo em alguma medida. Por exemplo, ninguém negará que Edward Thompson ou Eric Hobsbawm são historiadores ligados ao paradigma do Materialismo Histórico, uma vez que eles trabalham com uma concepção de história que privilegia a combinação fundamental de “dialética”, “materialismo” (no sentido proposto por Marx) e “historicidade radical”. Além disso, examinam a história como “luta de classes” (um conceito importante para esse paradigma que é o Materialismo Histórico). Estes e outros aspectos trazem pontos comuns a inúmeros autores que podem ser qualificados como relacionados ao Materialismo Histórico. O educador brasileiro Paulo Freire, por exemplo, auto identificava-se com o Materialismo Histórico, e também o filósofo alemão Walter Benjamin.

Mas aqui surge o problema. Paulo Freire não era apenas materialista histórico: ele também era católico. Ser católico era um traço tão importante da sua identidade quanto ser materialista histórico. Walter Benjamin, por exemplo, que também se identificava com o paradigma do Materialismo Histórico, tinha como outro dos traços importantes de sua identidade teórica um “messianismo judaico”, e percebemos no seu estilo de escrita uma influência de Nietzsche – o que, aliás, também ocorre com outros autores que dele se aproximaram através da famosa Escola de Frankfurt, tais como Adorno ou Marcuse. Estes autores também incorporavam em sua identidade teórica uma influência importante de Freud. Estou dando alguns exemplos diversos de modo a trazer a nu o problema contra o qual eu me defrontava. Os pensadores dos vários campos de saber, inclusive os historiadores, são complexos. Quando buscamos ajustá-los aos inúmeros paradigmas teóricos pertinentes aos diversos campos de conhecimento, percebemos que, embora eles possam se sintonizar com um paradigma ou outro, não cabem inteiramente ali.

Há casos mesmo em que podemos perceber que determinado autor responde a certas perguntas conforme a tendência expressa por um paradigma, e outras perguntas conforme outro paradigma. Por exemplo, Max Weber geralmente responde como um “historicista” às questões sobre o reconhecimento das intersubjetividades humanas; mas, por outro lado, acreditava na possibilidade de atingir certa forma de neutralidade científica de uma maneira que se aproxima muito do modo como os “positivistas” se colocam diante desta questão. Por isso, alguns autores chegam a dizer que Max Weber é “meio” historicista e “meio” positivista, ou que este sociólogo-historiador se coloca a meio caminho entre estes dois paradigmas.

Poderia seguir enumerando muitos casos. Paul Ricoeur tem o Historicismo como um traço importante de sua identidade teórica, mas igualmente importante neste autor é a influência do Existencialismo, e outra influência fundamental é a da Fenomenologia, particularmente a partir de uma assimilação da contribuição de Husserl. Ao historiador Droysen, dificilmente podemos deixar de classificar como “historicista”; mas além disso, ele possui outra nota de influência importante que é a do “hegeleanismo”. Ranke, um historicista anterior, já não tinha esta nota, e percebe-se mesmo uma clara rejeição de Hegel em seu trabalho. O filósofo Fichte está presente como uma influência importante em Ranke; mas também aparece de alguma maneira como um dos autores que ajudaram Karl Marx – o primeiro materialista histórico – a compor a sua identidade teórica (além de Hegel, Feuerbach, e vários outros).

Com isto, eu estou querendo mostrar que os pensamentos autorais são complexos. Não basta classificar um autor no interior de um paradigma, como se este fosse um compartimento no interior do qual encontrará os seus pares. Como resolver o problema da necessidade da apreensão da complexidade autoral de um historiador ou de um filósofo, por exemplo?

Foi aí que me surgiu a ideia do “acorde”. Na Música, um acorde é um som composto de outros sons. Diversas notas, que existem isoladamente, podem ser incorporadas em um “acorde” e adquirir um novo sentido musical. Esse som complexo, que traz tanta beleza à Música, é o acorde, e é importante ainda lembrar que uma única nota musical também pode carregar dentro de si sonoridades secretas (não perceptíveis pelo ouvido humano, a não ser sob a forma de timbres), que são chamadas de “harmônicos”. De todo modo, qualquer bom ouvinte de música pode perceber claramente a combinação de várias notas para formar um acorde. Ademais, a música é composta por sucessões de acordes, o que também é uma ideia interessante para o objetivo que eu tinha de incorporar esta noção à análise historiográfica.

A noção de “acorde” também aparece, diga-se de passagem, em outros campos de práticas e saberes. A arte da “perfumaria” baseia-se na ideia de que um bom perfume deve ser composto de um acorde formado por vários cheiros. Na “enologia”, um bom vinho pode ser composto por um certo extrato de uvas, mas ao mesmo tempo “harmonizado” por outros elementos – e até mesmo o barril de carvalho que o acolhe irá contribuir para o resultado final que se expressará sob a forma de um certo sabor singular e complexo que terá cada vinho.

Comecei a trabalhar com a ideia de que os pensamentos autorais – ou as identidades teóricas de um historiador, filósofo ou sociólogo – poderiam ser igualmente representáveis pela ideia do “acorde”. Um autor é quase sempre complexo: sua identidade teórica comporta influências autorais várias, traços específicos que singularizam seu pensamento, tendências a examinar certas temáticas. Podemos pensar autores – historiadores ou filósofos da história, por exemplo – a partir da metáfora do “acorde teórico”. Este é o projeto do ‘volume 4’ da coleção Teoria da História. Chamei a este volume de “acordes historiográficos”.

Anteriormente, comentei que o “ateísmo” de Karl Marx era uma nota singular do pensamento deste autor, mas não necessariamente um componente do paradigma do Materialismo Histórico, que Marx fundou com Engels em meados do século XIX. À luz do conceito de “acorde teórico”, podemos formular a ideia de que a base do pensamento de Marx é a tríade que caracteriza o paradigma do Materialismo Histórico (dialética, materialismo, historicidade radical). Mas, seguindo adiante, veremos que Marx não é só isso, pois sua identidade teórica também é composta por outros traços – tais como o “ateísmo” ou o finalismo socialista, além dos inúmeros autores que nele ressoam de uma maneira ou de outra. Podemos pensar em um “acorde-Marx”, por exemplo, e também reconhecer mudanças acórdicas que distinguem o “jovem Marx” do Marx da segunda fase (afinal, como disse antes, a Música nos oferece também o exemplo dos acordes que se sucedem: uma imagem que também pode ser incorporada para apreender a dinamicidade de uma determinada trajetória autoral).

Ousei encerrar o ‘volume 4’ de Teoria da História com uma análise acórdica sobre o pensamento historiográfico de Karl Marx, depois de ter examinado nos capítulos anteriores Walter Benjamin, Ranke, Droysen, Max Weber, Paul Ricoeur e Koselleck, além de entretecer comentários mais breves sobre outros autores como Foucault, Kierkegaard, Benedetto Croce e outros mais.

 

 

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Tags: entrevista, historiografia, história, josé d'assunção barros, teoria da história

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Márcia Elisa Teté Ramos Comentário de Márcia Elisa Teté Ramos em 9 outubro 2011 às 15:03

Trabalho com ensino de história, no mestrado de história social na UEL. partimos da epistemologia da história para entender, explicar, praticar o ensino de história. neste momento estamos discutindo o texto "Subjetividade e relativismo na história" para vermos melhor se o que deve ser ensinado. mesmo tempo que a história não seja verdade, as versões merecem uma ressalva: qualquer história é válida de ser ensinada? qual o critério que regula a história que deve ser ensinada? o professor deve se posicionar, como o historiador, para mostrar que determinada perspectiva histórica (por ex. que o holocausto não existiu) não pode ser considerada?

Rede Histórica Comentário de Rede Histórica em 14 julho 2011 às 19:28
Os livros do historiador José D'Assunção Barros podem ser adquiridos na Internet. Clique nas imagens que estão na entrevista!
elton de sena e silva Comentário de elton de sena e silva em 23 junho 2011 às 11:18

tanto a entrevista,quanto as obras do Professor José D`Assunçao tem grande importancia histórica.a historiografia é vital para a sociedade moderna.vou adquirir o meu!!!!!!!

Andrea Comentário de Andrea em 23 junho 2011 às 0:25
Sou fan do Prof. José D'Assunção. A entrevista foi muito boa!
Gisèle Miranda Comentário de Gisèle Miranda em 22 junho 2011 às 13:34

Parabéns ao historiador José D'Assunção Barros!

Adorei a valorização do historiador pela vertende criativa (tema do esperado 5 Vol) e o o conceito e "acorde teórico"!

 

Parabéns a Rede Histórica pela entrevista!

 

Miguel David Herrera Lage Comentário de Miguel David Herrera Lage em 21 junho 2011 às 21:20
Estimado profesor, José D'Assunção Barros: ¿Cómo puedo acceder a los volume II y III de su obra desde España? (Caro professor, José D'Assunção Barros: Como eu posso acessar o volume II e III de seu trabalho a partir de Espanha?)
Anna Paula Figlino Comentário de Anna Paula Figlino em 21 junho 2011 às 21:18
é, estou vendo que preciso comprar logo o segundo volume de Teoria da História... li o primeiro e espero que quando eu entrar numa faculdade eu já tenha um pouco mais de noção do conteúdo com o auxílio desses livros (:

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